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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A Paixão e o Amor - O mistério da esfinge


A Paixão e o Amor

O mistério da esfinge

“Muitos confundem a paixão com o amor; talvez tais sentimentos não sejam possíveis de serem traduzidos, porque vem da alma e tudo que gera misteriosamente a alma é quase que inexplicável”.
Letícia de Castro, “O Arquétipo do Amor e da Alma”, Ed. Madras



A paixão e o amor são muitas vezes confundidos e geralmente não compreendidos, mas são extremamente opostos. A compreensão desses dois conceitos nos ajuda a compreender muitos fatos de nossa vida e transcendem os limites do relacionamento à dois.

Apesar de normalmente esses conceitos se confundirem, essa confusão não resiste à uma rápida e simples reflexão. A paixão nubla o raciocínio e o julgamento lúcido, o amor contribui com sabedoria para um julgamento mais sensato e equilibrado.
A paixão tem sua força no que há de mais abissal e sombrio de nossas almas, enquanto o amor tem sua força no que há de mais elevado, lúcido e divino em nós.

Apesar de parecerem tão antagônicos à luz dessa rápida análise, esses conceitos, vamos assim denomina-los, são como o dia e a noite, os dois lados da moeda, as energias elétrica e magnética: são impossíveis de serem separados. Mas, por que isso? Simples, porque em essência são a mesma e única coisa.

A questão é que a paixão é como um ímã que atrai tudo para si e que tem a si como centro de tudo, tal qual a cruz swástica. Ela então exerce força egocêntrica no ambiente gerando fragmentação e divisão por onde passa.


O amor é como um ímã que irradia para tudo e para todos o que tem em si, tal qual a cruz sowástica. Ele então exerce força semelhante à centrípeta no ambiente, gerando irradiação e expansão por onde passa.

O fato é que esse “ímã” tem seus dois polos, um positivo e um negativo, um que irradia e outro que atrai, sendo em si uma só realidade.

A paixão nada mais é do que o amor por si mesmo, a suprema necessidade de satisfação própria, de seus apetites, interesses, necessidades, vontades, etc., é se prender e se apegar às fontes dessas satisfações. O amor é a paixão pelo todo, é colocar o outro acima de si mesmo, se desprender e se desapegar. Ou seja, na paixão o centro de gravidade se encontra dentro da pessoa e no amor esse centro de gravidade, ou razão de existência se encontra fora de si, no outro.


Essa força que confere razão de existência manifesta-se então de duas formas, como paixão e como amor. Uma tem por característica a natureza e suas sensações e a outra tem por característica o transcendental. Uma é material e a outra abstrata, uma sensorial e a outra extra-sensorial, uma é feminina e a outra é masculina. Uma é escura e a outra clara, como o pavimento mosaico, como o dia se alterna com a noite, como o verão se alterna com o inverno, em uma eterna dança da vida eterna.

O feminino, por ser passional, busca seu equilíbrio no objetivo masculino e vice-versa. A órbita dos planetas é estável, dinamicamente falando, porque equilibram-se as forças centrífugas (força que impele o corpo para fora da órbita) e centrípetas (força que por causa da Lei da Atração em que massa atrai massa faz com que os corpos se atraiam um ao outro, tanto o que está no centro quanto o que está orbitando).

A “Fonte”, popularmente conhecida como “Deus”, manifestou-se como matéria ou natureza através da Criação, no famoso “Fiat Lux” a partir do qual tudo é matéria, mesmo que muitíssimo mais sutil do que como a conhecemos. Mas, essa mesma Fonte também permanece Imanifesta. Isso nos conduz ao conceito dos “Números Complexos” da Matemática no qual não existe somente números naturais, mas sempre existirá um componente “imaginário”, pois assim é a realidade mais absoluta da Matemática.


Na vida devemo-nos equilibrar em duas pernas para poder caminhar, na feminina ou lunar e também na masculina ou solar. Andar com uma só perna cansa mais, dificulta a caminhada e até mesmo pode inviabilizá-la. A eternidade da existência ocorre na alternância entre luz e trevas, entre verão e inverno, entre o masculino e o feminino.


A natureza passional do feminino, que é pedra de tropeço do masculino pelo desconhecimento desse quanto a esse quesito, não só é um saudável refresco ao rigoroso e frio masculino como também lhe é saudável. Já a rígida e fria lógica do amor masculino abençoa o feminino com direção, ordem e foco.


Há quem afirme que o planeta Terra ou mesmo o plano físico, ou da natureza, o aspecto Feminino da Fonte, seja um “vale de lágrimas” ou o verdadeiro “inferno de dor e sofrimento”. Porém, é aqui que podemos sentir com todas as suas delícias e nuances, todo tipo de prazer, seja na forma de aromas, sons, toques, sabores ou mesmo sensações sexuais. Isso não existe com tal intensidade e força em outros planos, somente aqui. Então, podemos dizer que esse plano e planeta na verdade é o “país das delícias”, ou o verdadeiro Paraíso. Para compreender isso é só nos lembrarmos de algum sonho durante o qual comemos algo ou mesmo fazemos sexo. Foi tão prazeroso como no plano físico?

Costuma-se, espiritualmente, supervalorizar os planos sutis e mais elevados, porém se aqui não fosse bom, bonito e do bem, porque então a Fonte teria criado essa realidade. E, se essa realidade, a Natureza ou Feminino Universal, é a manifestação da Fonte então porque não a reconhecer como tal e reverenciá-la? E, principalmente, porque não desfrutar do que ela tem de melhor?


Na Idade Média (e até hoje) religiões culpavam o Feminino pela “perda do Paraíso” e pela fraqueza do Masculino, julgavam-no demoníaco esquecendo-se que é do Feminino que nasce a vida, que é da alternância de dia e noite que a vida se sustenta, que é à noite que se podem ver as estrelas.

A deusa hindu Maya, a deusa da ilusão, cumpre sua missão de testar a determinação, a convicção e o nível de consciência do iniciado. Esse teste fortalece o verdadeiro iniciado, distinguindo-o dos demais “espiritualistas de shopping” que acreditam que “o hábito faz o monge”.

Letícia de Castro em seu livro “”O Caminho do Mestre” ensina que a deusa grega Circe, filha do Sol, representa a missão do Feminino ao evidenciar o que há de imaturo e despreparado no Masculino em evolução indicando de forma inequívoca o que precisa ser trabalhado, melhorado e evoluído. Essa mesma autora, em seu outro livro, “O Arquétipo do Amor e da Alma”, nos ensina que para se chegar ao estágio mais puro do relacionamento, o amor, ela deve sentir paixão antes e que a paixão é como se fosse um teste para o amor, ou ela morre ou se transforma.


O “problema” tanto da paixão quanto do amor é o extremismo. É daí que surgem o ditador egóico e também o místico alienado, o matar o objeto de paixão para que não seja de outro e também o sacrifício do objeto de amor em prol do todo. Nem tanto ao mar, nem tanto às estrelas. A vida se desenvolve na superfície da terra.

Em uma relação entre duas pessoas, a paixão é responsável pelo prazer físico, pela necessidade de estar junto com a outra pessoa fonte de nossa satisfação, com seus cheiros, formas e atitudes que nos agradam. O amor, no caso, é o respeito por sua liberdade, por sua originalidade, pela sua felicidade, por suas escolhas e forma especial e original de ser. O verdadeiro amante quer que o motivo de seu amor, o outro, seja feliz junto ou não a si. Já o apaixonado que ser, ele mesmo, satisfeito, custe o que custar ao objeto de sua paixão.


Uma relação à dois sem paixão carece de desejo sexual e as duas pessoas se tornam ou desinteressados um pelo outro ou são como irmãos. Mas, a característica da paixão é como a natureza que incessantemente se renova. Por isso a paixão tem seus ciclos, pois um fruto nasce, se desenvolve, cresce, gera novos frutos e perece. Ou seja, a paixão precisa se reinventar, como os ciclos da natureza, ou está destinada a fenecer.

O amor, é o que confere razão para a manutenção do casal, são os objetivos em comum, é a alegria de ver o outro feliz e bem, é considerar suas diferenças e contribuir para que sejam de alguma forma livres para se manifestar e também serem satisfeitas. Uma relação sem amor não é uma relação, mas sim um negócio egoísta (de ambas as partes) de interesse circunstancial que pode terminar de forma fria e brusca a qualquer momento quando pelo menos uma das partes atingir seus objetivos ou ver que a outra já não tem mais nada a contribuir com suas metas.


Astrologicamente a paixão está diretamente regida e relacionada com o eixo Touro-Escorpião, o eixo da manutenção da vida em todos os sentidos, desde a libido, os instintos de conservação até mesmo a questão financeira que é a sobrevivência social. O amor por sua vez está relacionado com o eixo Leão-Aquários, o eixo do amor, tanto individual quanto coletivo, tanto pessoal quanto fraternal, tanto voltado para uma pessoa quanto para um grupo de pessoas. Esses eixos são ortogonais, ou seja, fazem noventa graus entre si, ou, formam uma cruz entre si. É exatamente essa cruz formada por esses dois eixos que os esoteristas relacionam com a famosa Esfinge egípcia e sua misteriosa frase “Decifra-me ou devoro-te”.


Os signos dessa cruz são os signos “fixos” em Astrologia, ou Tamásicos, os mais diretamente relacionados com a vida material e concreta, com a estabilidade, manutenção ou conservação da vida, seja no âmbito individual, seja no âmbito coletivo. Faz sentido então considerarmos que a paixão e o amor serem o centro da vida e que esses mistérios devam ser decifrados ou então estamos sujeitos a sucumbir sob eles. Afinal, porque vivemos, na maioria das vezes? Porque queremos um bom emprego, ganhar dinheiro, ter bens que nos orgulhamos senão para agradar à uma pessoa especial em particular ou então agradar a um grupo de pessoas.

A forma como lidamos com a paixão e com o amor em nossa vida pessoal acaba por influenciar como lidamos com questões de natureza social e também espiritual.
Se em nossas vidas pessoais somos passionais assim também o seremos no convívio social. Se em nossas vidas pessoais somos abnegados e altruístas, também seremos da mesma forma no grupo de relacionamentos dos quais participemos.

Se somos egoístas e apaixonados por nós mesmos e nossas necessidades tendemos a não abrir a mente para compreender as necessidades alheias. Uma pessoa assim tende a viver mais, pois apega-se à vida material com unhas e dentes, mas vive mal, cheia de dores, rancores, sofrimentos e lutas.

Se somos abnegados e amorosos conosco mesmo tendemos a estarmos muito abertos para a vida e para a sociedade em geral. Uma pessoa assim, por seu desapego ao físico, tende a viver menos, mas vive bem, em paz e harmonia consigo mesma e com o mundo.

Da paixão individual surgem o fanatismo, seja por uma religião, por um time de futebol ou por um partido político. A mente se fecha, fica obtusa e não se busca a verdade de forma alguma, mas somente argumentos para se comprovar as ideias já existentes.


Via de regra a paixão conduz ao apego pelo poder, seja em que nível for, seja o poder sobre o cônjuge, desconsiderando ele como pessoa autônoma, livre e diferente, seja sobre outras pessoas antagonistas. Aqui a ilusão ou equívoco é a ideia de se “possuir” algo, pois com o tempo o objeto ou pessoa “possuída” acaba fenecendo, morrendo. Há que se ter espaço para “respirar”, para que o outro se mantenha vivo. Isso ocorre tanto nas relações amorosas quanto no plano social ou mesmo econômico. O capitalismo é um exemplo de paixão pelo bem, pela posse, pela concentração de recursos. A filantropia e o altruísmo são seus opostos e complementares e vêm equilibrar a Cruz Fixa Astrológica formada por Touro-Escorpião + Leão-Aquários, que a Esfinge egípcia representa.


No plano econômico por exemplo, se alguém atingisse o ideal da paixão pelo dinheiro, do capitalismo, que é ter concentrado todo o dinheiro do mundo resultaria no fim do capitalismo porque então ninguém mais teria dinheiro, bens ou posses para trocar comercialmente e tudo o que essa pessoa única tivesse não valeria mais nada. De que valeria ter trilhões de dinheiro se nada mais pudesse ser comprado? Não haveria circulação de dinheiro e aí o dinheiro perderia seu valor.


Por outro lado, vivemos aqui no físico e não podemos desconsiderá-lo. O plano físico é que nos abriga e nos proporciona não somente a satisfação de nossas necessidades básicas, mas também prazeres, alegrias e satisfações. Desconsiderar a importância do físico, do material e do concreto é um grande equívoco, pois é nesse “palco” que ocorre nossa evolução mais importante. Não existe nada mais importante na evolução espiritual que a vida material. Nesse momento da evolução de nossa humanidade o desenvolvimento espiritual se encontra no respeito ao Feminino Universal, à Natureza (tanto interna quanto externa), à matéria, pois é Ela que é o “arcano” ou “arca sagrada” que abriga em seu âmago, seio ou mistério interior, a Verdadeira Luz ou divindade, fagulha da Fonte Original. Em outras palavras, se buscamos Deus é na natureza ou na Deusa que o encontraremos, Ela é o altar de Deus manifesto. Se buscamos o amor, comecemos pela paixão, como bem ensina Letícia de Castro; se buscamos a luz, iniciemos por nossas fecundas sombras; se buscamos a saúde, olhemos para nossas doenças; se buscamos o “Paraíso”, caminhemos rumo ao “Inferno”, como o fez Jesus no Credo católico, antes de se sentar à direita de Deus Pai Todo Poderoso.


Mas, devemos sempre nos lembrar que a estagnação é a verdadeira morte. Vida sempre é movimento. Não nos fixemos apenas no amor ou na paixão, mas os alternemos, assim como o dia se alterna com a noite, o verão com o inverno. Deixemos a Roda do Ano ou da Vida girar! Nessa Roda se alternam os raios ou eixos da paixão e do amor e assim a vida flui perpetuamente.

Juarez de Fausto Prestupa

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